PASSOS ESPECIAIS DE ARZÚA A MONTE DO GOZO


Fim do dia 06/10/04, relembro da etapa sonhada que previa muita felicidade e que neste antepenúltimo dia eu deveria estar muito feliz, rindo à toa e chorando também e, coisa boa, seria chorar de alegria por estar chegando o dia do abraço sonhado.  Mas o meu sonho alertava, é o projeto mas vai depender das circunstâncias do momento real. E a realidade impunha estar indo para pernoitar em Arzúa, que eu não pretendia. Além disso, tinha esperança também não realizada. Não havia qualquer atendimento de serviços na hora chegada que pudesse consertar minha máquina, aliás, não haveria nunca mais pois era impossível o conserto. E eu só lembrava que era a segunda máquina destinada ao Caminho que se recusava a me servir. Eu gostaria de ter uma foto do Albergue  de Ribadiso de Baixo para este relato, mas não vou repetir a que incluí na  etapa sonhada pois não tenho como solicitar autorização à autora para esta publicação.  

Do trecho entre Ribadiso de Baixo e Arzúa não ficou registrado na memória nadinha de nada. A lembrança é de vistas embaçadas, resistência do olhar, por não poder com a digital clicar.

O povoado estava apinhado de peregrinos e, quando cheguei, encontrei lotadas todas as hospedarias próximas à rua principal, inclusive a Pensión Rua, aquela que tinha recebido a minha mochila, que não veio mesmo com reserva de pernoite. Consegui, no albergue municipal, uma indicação de uma hospedaria privada, mas distante quilômetros; para levar havia uma van de transporte, mas voltar para jantar  e depois retornar, e sair na madrugada seguinte, só no passo. Assim fiz, porém, depois de um banho relaxante vim para o centro,  especialmente para telefonar para os meus. E quando ouvi a voz de Luiz e comecei a contar a odisséia do tombo da máquina rompi num choro e, quem passava na calçada do orelhão? O gaúcho Aristides, logo a oferecer sua última e eficiente crítica, não pode chorar e entristecer a família desse jeito, tem de providenciar a compra de uma dessas máquinas de bater poucas fotos e jogar fora... e eu contando para Luiz, o cunhado do Gilberto está aqui me orientando... e Luiz, isso mesmo, estou escutando, ele está certo, bem material não representa nada, o que importa é você estar bem. E após, mais uma vez, agradeci ao conselheiro e nunca mais o vi.

Nessa noite jantei sozinha num bom restaurante e voltei para a hospedagem, e naquele retão de total isolamento, escuridão, outro momento para vencer a limitação que me havia perseguido durante todo o Caminho pelos campos das estrelas... o medo de trilhar na escuridão, não da madrugada que eu sabia que iria amanhecer, mas a da noite. E venci.

E na manhã seguinte, dia 07/10/04, saí trilha afora. A minha previsão, vencer apenas em torno de 17 quilômetros e pernoitar em Santa Irene e, no dia seguinte, partir para completar os outros 18, até Monte do Gozo. Aqui eu não abria mão de pernoitar. Queria estar de véspera para a descida, pela manhã, dos 4 quilômetros que faltariam até o encontro na Catedral de Compostela com Tiago Maior para o abraço.

E fui assim andando nesta trilha, entre florestas de eucaliptos, diante de subidas e descidas, mais um dos trechos da rota jacobea que de vez em quando cruza a carretera, esta a 547, que corre meio paralela a ele. E entre os vários povoados em que passo num deles uma parada para um café.  Não sei se já vinha andando com Miriam e Rodrigo, penso que ainda não, mas já os tinha encontrado... ela uma alemãzinha animada, flautista, ligada à música no seu país e ele, o brasileiro, maestro arranjador, vinculado à Orquestra Sinfônica de São Paulo, calmo, sereno. E também encontro Úrsula e seu marido, e nesta foto enviada posteriormente por ela, eu, circundada pelos dois, Rodrigo e o marido dela, ela certamente a fotógrafa. O trio risonho!

Apesar dos pesares eu estava feliz e por essa razão reproduzo um pensamento de Thiago de Mello, citado nas minhas etapas sonhadas com apud, na sala de conversa do Portal do Peregrino1, do  Sérgio, o autor do livro  Alma Lapidada2 , que sorvi, antes de trilhar este meu Caminho.   

" Pensamento de Thiago de Mello

Não, não tenho caminho novo
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
Aprendi
(o caminho me ensinou)
a caminhar cantando
como convém a mim
e aos que vão comigo.
Pois já não vou mais sozinho".

Não tenho fotos para mostrar mas tenho muito para lembrar. Foi neste prolongado café que, conversando com Rodrigo, discorremos sobre os planos de cada um, o dele e de Miriam seria chegarem neste dia para pernoite em Monte do Gozo, o meu,  de acordo com as minhas limitações, pernoitar em Santa Irene, embora eu desejasse no dia seguinte ir só até Monte do Gozo e expliquei o motivo: quero chegar em Compostela na manhã de um dia, a tempo da Missa dos Peregrinos ao meio dia. Não queria um chegar vespertino.  E Rodrigo me contestou: mas se você quer por quê não vai hoje até Monte do Gozo? Eu respondi, não posso, são mais de 30 quilômetros. Ele esclareceu... são 34, mas se você deseja você consegue. Eu retruquei, eu ando muito devagar e tenho receios de cair a noite e eu no Caminho... e o jovem, tão insistente quanto generoso, decidiu afirmar... não vai cair a noite e eu ando devagar, no seu passo, pode estar tranqüila... e eu ainda contra-argumentei, a Miriam é sua companheira de caminhada, ela anda depressa... certo, ela costuma andar depressa mas sempre  pára e espera... Bem, foram horas, chegamos no fim da tarde e iniciando a noite em Monte do Gozo, rimos muito, Miriam realmente disparava mas, de repente, numa curva, lá estava ela sentada, descansando e esperando, almoçamos juntos, curtimos a chuva, subimos e descemos montanhas... na passagem do famoso e histórico hórreo sobre a trilha jacobea eu pedi uma foto de registro e Rodrigo clicou em sua máquina...

e depois me enviou conforme o recadinho que guardo, com todo carinho fraterno desta irmã mais velha que nunca vai esquecer essas duas criaturas de Deus, Anjos Dele.  

Miriam eu já revi, veio da Alemanha em excursão com uma amiga pela América Latina e esteve comigo por alguns dias; ele, embora morando tão perto, não conseguimos nos reencontrar.

E no enorme albergue de Monte do Gozo, que é interessante para quem está pregado de cansado, desce-se a montanha para entrar pela porta principal do Albergue e depois se sobe em degraus internos a mesma montanha para registrar lá no alto sua presença, carimbar pela penúltima vez  a sua Credencial e receber as chaves  do quarto que em trio dividimos.

Estes meus passos neste derradeiro trecho do Caminho foram, além da superação física que meus pés e pernas agüentaram, a transposição das barreiras internas, passos especiais fundados na esperança esparramada pelo vigor d´almas de dois jovens que foi como se me soprassem:

"Peregrino, peregrino

tú que cruzas las montañas y andas

los caminos, no pierda las esperanzas

de llegar a tu destino"

de Juan Caballero, extraído de "O sonho de uma Peregrina", de Ângela D. Ribeiro, conforme citado no diário da Peregrina Nilza Garutti.3

A noite de 07/10/04 no Monte sonhado  foi tranqüila. Os jovens ainda tiveram ânimo de subir a montanha para apreciarem o Monumento Comemorativo da visita do Papa João Paulo II em 1992 a Compostela e, do alto desse Monte do Gozo, que é a última colina antes de chegarmos à Praça da Catedral Santa, tentarem previamente avistar suas torres. Impediu-me, não só o cansaço físico e a necessidade de tratar de lavar e secar as minhas roupas, mas também o mau tempo que fazia e que, pelo que eu tinha lido, poucas nuvens que fossem vedariam a visão. Especialmente, no entanto, queria desfrutar o gozo de avistar as torres, após descer os agora pouquíssimos quatro quilômetros que me separavam do objetivo a alcançar. 

O Albergue é todo ele gigantesco, salas repletas de máquinas de lavar e secar, salas de cybers, restaurante self service, restaurante à la carte, supermercado, formado por pavilhões com quartos de 8 camas cada um, em verdade também uma construção destinada à exploração turística. Nesse sentido perde o espírito peregrino dos albergues ao longo do Caminho. Tem razão o Guia El País4 quando afirma:

"Hoy, el Monte do Gozo  es un gran centro de acogida de turistas, congressos e viajes de estudios, sin mayor atractivo para el auténtico romero a Santiago. Una absoluta pena".

Nada, porém, me faria perder o ânimo, aplacar o amor que me embalou  e o espírito da peregrinação, sentimentos que me levaram a caminhar centenas de quilômetros desde Saint Jean Pied du Port para estar aqui, Caminho que, espero, me auxiliará à transformação sempre para melhor daquela que sou. Lembro que nessa noite reli Luiz.

"O momento é grandioso e benevolente, por justamente nos acordar e mostrar o quanto é possível amar. Por isso, o tempo de espera é carregado de sentidos. Que você tenha sempre presente essa grandiosidade e faça dela constante parte (sei muito bem que há muitas outras) da motivação que a inspira".

Respeitando os jovens que preferiram o self service, dei-me de presente um solitário jantar à la carte, pensando em meu companheiro ali comigo curtindo. Depois, pontualmente às 22:00 horas, nos recolhemos para o sono do descanso. O dia seguinte ia ser o ponto culminante da peregrina aventura.

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Livros e citações:

1. Caminho de Santiago a Compostela. Portal do Peregrino.
www.caminhodesantiago.com/

2. Garcia, Sérgio Rubens. Alma Lapidada - pelos personagens do   Caminho de Santiago. CLC Editora. Florianópolis/SC 2004.

3. Garutti, Nilza. O  meu Caminho de Santiago. Relato peregrino.

4. Guia El País Aguilar: El Camino de Santiago a Pie.

 
 

 

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