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Acordei
neste dia Oito de Outubro do Ano Santo
Compostelano de 2004 com o coração saltitando
de alegria. Na realidade, parecia que ele
brincava ao sentir que daí mais um pouco,
faltava muito pouco, o velho sonho, pleno,
intenso se realizava. Durante o café do trio,
cada qual definiu seu tempo para a mesma
direção.
Eu fui a
segunda a sair, depois da jovem Miriam, e meus
passos compassados batiam o compasso da
lembrança de todos (as) que desciam, em
pensamentos e emoções comigo, aquela última
montanha para o abraço a Santiago. É Tiago, o
Maior, o Evangelista, o Peregrino, o Santo.
Lembrei dos meus irmãos, especialmente daquele
que deveria estar ali comigo, e nós dois, como
manda a tradição, juntos cantando. E pensei,
mas se eu dei todos esses passos nesses que
dizem ser em torno de 750 quilômetros
vencidos, durante esses 33 dias, por mim e por
ele, agora eu também posso cantar por nós
dois.
Pensando em
repetir a idéia de minha etapa sonhada, a
imagem para abrir este final do relato, bati a
foto das torres apenas como se estivesse o meu
olhar através delas tocando o céu...
uma visão
de quem olha para o Altíssimo, como as torres
da Catedral do Apóstolo...
embora não tenha o efeito lindo daquela
pertencente ao álbum de Rafael e Maria Jesus1,
esta aí acima é a minha, é a tomada pela minha
presença aqui, permeada de toda emoção que
sinto.
Abaixo, o
coração carinhoso de Clô cedeu a sua visão da
Catedral e suas torres ao longe.

E comecei a
descer com um lá, lá, ra, lá rá rá, entoando
esta melodia da canção que embalou as minhas
etapas sonhadas e toda esta minha caminhada.
Canção agora enriquecida com o poema de Luiz
Antônio, meu companheiro no caminho da vida
que, embora não recebendo o chamamento para
realizar a pé a Rota Jacobea, esteve
permanentemente a apoiar e a compreender o meu
sonhado projeto. E, no retorno do meu último
preparatório, de surpresa brindou-me com
este poema, ao qual deu o nome da canção
e que, ao incorporar a alma peregrina,
solfejou por mim e para mim.
AMOUR
Luiz Antonio Lucena de Oliva
Sonhos comigo vou levar
nos
passos de um novo caminhar,
com
preces e pétalas de mil paixões,
em
lembranças, quimeras e canções.
E
parto num novo despertar,
alvorada de puras sensações.
minh´alma vai estar sempre a cantar,
aos
ventos e sopros dos rincões.
Cantante, será meu coração,
vibrando em cada nova oração,
abrindo os mundos do sem-fim,
e
aqueles que estão dentro de mim.
Alegre, a cumprir o longo andar,
com fé e também amor cristão,
sem
nada pedir, ou reclamar,
eu
terei Deus a dar-me sempre a mão.
No
seio da mãe-fértil-natureza,
comigo os meus ais e incertezas,
mas
tenho alento para o que há de vir,
na
sua seiva se nutre meu porvir.
Montes... estrelas...
céu de emoções,
caminhante, eu sei aonde vou chegar,
tecendo as trilhas, tradições,
andante, sou o próprio caminhar.
Santiago, ao fim dessa missão,
compôs... tela de toda uma devoção,
é
bálsamo a aliviar o meu viver,
esperança de sempre renascer.
A passagem
pelos bosques galegos antes de chegar ao Monte
do Gozo já havia proporcionado momentos de
profunda reflexão, mas esta descida aqui me
remete aos céus das estrelas que cintilam no
meu interior. Antes de entrar na zona urbana
eu começo a cantar...
eu fico com a
pureza das respostas das crianças...
é a
vida... é bonita, e é bonita...
e
vou observando ângulos interessantes, e a
emoção vai avolumando, mas lembro que estou
sem máquina...não sofro, penso, para que eu
possa fotografar, Santiago haverá de me dar
uma trilha. Luiz, como luz positiva,
enviava-me, na véspera deste dia, a mensagem
que eu leria tempo depois, mas o efeito da
vibração chegou célere, e deixo em registro
gravada neste relato:
"Amor: Eis que o sonho se realiza com
plenitude! Vibrei quando a Juliana me contou
que vc. está às portas da meta tão desejada.
Sua decisão foi certa; agora, é um "pulinho"
até Santiago de Compostela e a guerreira
peregrina terá cumprido sua missão. Todos os
sonhos, todos os anseios, toda a determinação,
tudo que vc. prometeu a si mesma nesses meses
todos, tudo acaba se condensando no momento
sublime de uma devoção marcada pelo amor e
pela entrega.
Sentimo-mos todos incluídos nessa hora tão
importante, tão inesquecível! Afinal, vc.
venceu. Que todas as suas emoções fiquem
gravadas em sua memória e em seu coração, para
desfrutar pela vida inteira.
Espero que vc. consiga resolver o problema da
máquina, mas se não for possível será, no
fundo, mais um detalhe a compor esse
verdadeiro painel de fortes emoções, vividas e
sofridas.
O
preço material ficará engolido pelo sentido
espiritual da peregrinação.
Aqui, felizmente, tudo continua bem, em paz.
Quanto à sua volta, vc. vê o que for melhor
para vc.; esta deve ser sua viagem até o fim.
Hoje ainda estou precisando atualizar a
leitura final das etapas. Se aí, ao chegar,
vc., como outros peregrinos, sentir saudade do
Caminho, nós aqui também teremos vontade de
fazer a releitura dos vôos de sua imaginação,
para tentar entender um pouco do significado
de sua trajetória. E aí, vai preparar um
livro? Se o fizer, tenho a certeza de que
ficará tão bom quanto os melhores!
Agora são 22.00 horas. Lu e Lucas ainda estão
conosco, esperando o Francisco chegar do
curso. Quando acordarmos amanhã, vai nos
ocorrer a primeira idéia do dia: ela chegou
lá!!! Que vc. tenha um sono reparador e lindos
sonhos, que vão continuar e provavelmente até
aumentar, e talvez mais ainda a partir da sua
volta.
Um beijo de seu Luiz. "
Assim
embalada fui cantando, e passaram parque
industrial, carreteras
de intenso tráfego, esse o inevitável
confronto com a realidade da grande cidade,
mas não o propalado embate com o trânsito, o
barulho e o movimento, talvez pelo horário,
bem cedo, em que entro na zona urbana,
e exulto internamente por aproximar-me do
final da jornada: Santiago está ali, a
pouco tempo de caminhada. Desde o alto, apenas
quatro quilômetros me separam do encontro com
a Praça do Obradoiro...da visão da Catedral
de Santiago... da superação final das minhas
limitações... do encontro para o abraço ao
Apóstolo... do definitivo encontro comigo.
Já não mais
pesam a mochila e as botas, já não há mais
cansaço, não há tempo medido e metragem de
trilha andada aferida, é o início de um
êxtase que me aproxima de Deus.
Seguindo as
setas entro no centro viejo com seu
comércio todo ainda fechado, e vou trilhando e
na segunda ruela espanto, uma loja aberta,
incrivelmente uma fotótica, lá dentro duas
jovens... ah! pensei... sei, conheço quem é o
Guia deste meu Caminho. Ele está a me
dizer... entra. As jovens Olga e Suzana se
desdobram em atenções para preencher a falta
da máquina de que eu precisava, porém com
custo adequado ao fim de uma caminhada como
esta e oferecendo-me todas as ligeiras
explicações para o funcionamento da mesma.
Beijando-as
saí agora levitando. E na primeira curva da
rua a primeira foto.

E mais uns
passos, com a primeira visão de uma das torres
da Catedral desabei de emoção.

E vou
registrando o complexo de antigas construções
que circundam a Catedral.


E chego na
Praça do Obradoiro e deparo-me, embora a foto
de beleza restrita, com a portentosa
Catedral de
Santiago

o emblema
religioso da Galícia e do Caminho de Santiago,
com múltiplos pontos de interesse, entre os
que se destacam no seu interior o Pórtico da
Glória do Mestre Mateus e no exterior as
fachadas de Pratarias e Obradoiro, conjunto
barroco que completa a fachada principal
diante do pórtico da Glória em frente ao Paço
de Raxoi.2
Santiago de
Compostela é a capital da Galiza (Espanha),
localiza-se na província da Coruña, de área
223 km2, com população de 93.712 habitantes
(2007) e densidade populacional da província
de 416,70 hab/km², conforme dados da página
indicada.2
É uma
cidade mundialmente famosa pela sua catedral
de fachada barroca onde acorrem os peregrinos
que perfazem os Caminhos de Santiago de
maneira a depararem-se com o manto de
Sant'Iago, um dos apóstolos de Cristo, cujo
corpo, crêem, foi trasladado para aquele
lugar.
Choro a
cântaros, e não me importa o choro pois são
lágrimas de emoção, e chorando encontro com o
alemão Roland, que se dispõe a fotografar a
minha chegada na Praça, nesse momento já mais
movimentada, desfraldo a bandeira do meu país.

e, numa
seqüência de quatro fotos, clica minha subida
nas escadarias e o meu aceno como a gritar
cheguei... eu consegui.


E ao me
despedir de Roland, o mesmo peregrino a quem
tive a coragem, pela primeira vez, de pedir a
alguém, interrompendo seu caminhar, que me
fotografasse, eu o registro junto a um casal
amigo dele.

Agora é
chegado o momento de adentrar a Catedral para,
primeiramente orar, agradecer e olhando para
Santiago dizer: com sua ajuda e seu
auxílio eu consegui estar aqui.
SANTIAGO NO
ALTAR

Em seguida
cumprir os rituais, o das mãos no Pórtico da
Glória, não fotografado, e o do bater a
cabeça três vezes na imagem do mestre
Mateus, o construtor do maravilhoso pórtico e
também chamado de "o Santo dos croques", este
fotografado pela gentileza de uma
recepcionista ao lado.

O momento
para o abraço esperado, por uma entrada
especial, compondo a extensa fila a subir por
detrás do altar principal.

Infelizmente,
eu não tinha alguém para registrar o meu
abraço... foi aquele momento de pedir a
Santiago por todos: por minha família, por
amigos e amigas, pelos enfermos do físico e da
alma, pelas almas dos que já se foram,
pela minha cidade, pelo meu país, pela paz no
mundo...eu estive obrigada a dois abraços...o
meu e o do Beco...e ainda depositei aos
pés de Santiago o laço de fita com os nomes de
todos (as), aqueles (as) com os quais saí do
Brasil e aqueles (as) que acrescentei no
Caminho.


E passando
pelo local que afirmam ser o sepulcro de
Sancti Jacobi, estanquei naquele exíguo
espaço e pude participar do final da missa que
estava sendo celebrada, ainda antes da
consagração, com a presença de um casal, duas
crianças e um senhor. Fiquei admirada e meio
constrangida tentei um close da lápide.

Diante do
acúmulo de turistas que chegavam em Compostela
em razão de um feriado próximo, talvez o mais
correto, alguém pensaria, teria sido agora eu
sair para providenciar alojamento, mas decidi
o contrário...
resolvi dar curso às minhas
emoções e sentimentos, e tratar de todos os
rituais e vivenciar os fazeres em relação ao
Caminho, para depois pensar em hospedaria.
Cheguei a avaliar, como último recurso eu peço
para dormir num banco da Catedral ou da praça.
Dessa forma
saí a campo para receber meu Certificado da
Compostelana. Fila que, na Oficina dos
Peregrinos, invadia pela escadaria.
O cão e o
peregrino

Revejo os
dois franceses que, em Tosantos, por se
portarem de maneira individualista, não
participarem dos atos coletivos como a
refeição e a oração, foram classificados como
não peregrinos, apenas caminhantes, pois é,
estão aí, dando valor à Compostelana e bem
disciplinados respeitando a fila. Alterado o
conceito negativo sobre eles, coisas do
Caminho.

Registro os
quadros nas paredes e suas mensagens, as fotos
em tela, ampliadas, possibilitam a leitura.

E,
surpresa,recebo o favor divino de poder
retribuir para Rodrigo, uma pequena faísca de
toda a chama da sua atenção fraterna comigo,
registrando a sua saída, feliz, ao receber o
seu Certificado Compostelano.

Agora a
atendente assinando e a foto do meu. Sinto
como o sabor de receber um certificado de
doutorado do aprendizado da vida.
Na última linha do livro que aparece na foto,
o registro do meu nome e a cidade de onde
vim... Santos/SP e a maneira como cheguei...
a
pé.


Na saída da
Oficina identifiquei as janelas onde se
encontravam as câmeras que transmitem, em
tempo integral, para a página do Caminho do
Peregrino 1,

e
identifico o local, a fonte no monumento
da praça, o mais próximo onde devo me postar
para que meu pessoal no Brasil me veja...
o
plano já estava por mim engendrado. Aqui com
uma das peregrinas alemãs, para as quais
expliquei a existência da filmagem e o
endereço e os passos internéticos para que
outro local e mesmo de outro país atinja, e
hoje nem sei se ainda existe esse recurso
internético para se estar no Caminho através
do espaço virtual.

Logo a
seguir, participar da Missa do Peregrino, um
acontecimento grandioso, realizado diariamente
ao meio dia, mas neste dia antecipada para as
11:00 horas, foi missa solene, com a presença
do Bispo Geral de Santiago de Compostela, com
o Cardeal do Chile e um Ministro Chileno que
usaram a palavra na celebração e que foi
concelebrada por mais de 10 sacerdotes...há
uma relação de irmandade entre esta cidade e
a capital do Chile. Mas me emocionei mesmo
quando foi citado e discorrido o Evangelho do
dia: do Evangelista LUCAS. Parece também que
neste fim de semana há o feriado do dia 12,
terça-feira, que estende o fim de semana
e, por razão do Ano Santo Compostelano, há uma
Vigília Nacional... a cidade está repleta. E a
Catedral no momento da Missa também. Faço, de
longe, uma seqüência de fotos do Altar, em
diferentes momentos, e era bem difícil a minha
situação, pois não consegui lugar em banco
e minha mochila ainda se encontrava nas
costas. A emoção era tamanha que qualquer dor
ou incômodo físico foram plenamente
sublimados.

Toda a
celebração foi lindamente cantada por uma
belíssima voz de soprano, comentado que seria
uma freira, naquele turbilhão de pessoas não
acompanhei se foi feita referência ao seu
nome.


Ao final a
oração e saudação aos peregrinos e a citação
dos países e o quantitativo de seus
representantes com inscrição até às 10:00
horas do dia... o Brasil com três...
Clotilde
(Clô), Rodrigo e eu.
Por último,
o magnífico ritual do botafumeiro, esse imenso
incensário que é erguido por oito homens,
chamados tiraboleiros, e com cordas lançado
para o alto e, pela nave transversal à nave
central balança sobre as cabeças das pessoas
que olham todas para cima, extasiadas, e
o aroma do incenso espalha-se por todo
o ambiente da Catedral, emocionando a
todos e acompanhado por órgão e canto do Hino
a Santiago. Há quem diga que o costume
medieval desse incensário tinha o objetivo de
minimizar o mal cheiroso odor trazido pelos
peregrinos em decorrência da extensa e difícil
caminhada.

Alguns
registros dos momentos do balançar
botafumeiro.
Todos os
fiéis de pé, na Catedral lotada.

Uma visão
dos arcos da nave transversal citada,

uma
tentativa de captar a passagem do lindo
adorno, mas com a rapidez que balança, só com
uma filmadora e em boa localização para
o foco.

* Incluído
em
11/12/2009 o
vídeo,
cedido pela amiga peregrina Clotilde, que
registra a liturgia do batofumeiro na Catedral
de Santiago de Compostela.
O fim da
celebração da Missa para mim teve um sabor de
pleno congraçamento...
parece que todos
(as) aqueles (as) cristãos (ãs) ou não, se
encontram, ou reencontram, ou se descobrem
naqueles momentos... e eu, assim, de
repente, senti Tiago O Peregrino, na minha
mochila nas costas recebo um toque para um
abraço, de quem? Clotilde...amiga peregrina
entre as especiais. Clô, a irmã peregrina,
ela com a vivência de alguns Caminhos, a pé e
de bicicleta, aqui também generosa
compartilha lindas fotos suas neste meu
relato. Só nós podíamos mesmo reencontrar o
nosso abraço naquele turbilhão de pessoas
dentro da Catedral, ambas dividindo-o com os
abraços dados a Santiago. E naquele momento já
sorvi, na vida real, o belo exemplo da rota
jacobea... onde estás hospedada?
indagou a amiga. Respondi, ainda não estou,
nem sei se vou conseguir local com
esse quantitativo de turistas na cidade, mas
eu durmo até num banco aqui. Ela respondeu
categórica, vamos até a hospedaria em que
estou, sei que a partir de hoje divido o
quarto com uma outra brasileira que nem
conheço ainda, mas vamos pedir para que
coloquem outro colchão, nem que seja no chão.
Eu, com os meus receios de sempre,
indaguei... mas Clô, e se a outra hóspede não
concordar? ah! se ela não concordar ela
não é peregrina.
Maria
Isabel, a cearense de Fortaleza, não só
se revelou uma grande peregrina, mas um ser
especial também, uma generosa companheira
irradiando só alegria e...
o mais bonito e
mesmo emocionante, foi presenciar o inesperado
encontro de duas colegas e amigas, que há mais
de 20 anos não se viam, após a conclusão da
residência médica que cursaram juntas, em
Campinas/SP.
Registros
de um dia de transbordamento de alegria. Ainda
na Catedral S. Revdmo Bispo Geral de Santiago
de Compostela encontra-se com os fiéis

e não passa
sem os nossos cumprimentos,
Clô o
cumprimenta

O meu
cumprimento

Reencontro
o holandês com sua esposa, que veio da Holanda
para encontrá-lo na chegada do Caminho e Clô
também o conhecia.

Eu feliz
ainda por reencontrar também Natália, a minha
companheira dos passos entre León e
Villar de Mazarife.

E agora, em
direção à Pension, localizada bem
pertinho da Catedral, nos estancamos por
preciosos momentos...
após as ligações
telefônicas ao Brasil, orientadoras da
teclagem internética para o acesso ao endereço
no site Caminho do Peregrino, eu e Clô, deste
ponto do monumento da Praça, fizemos o devido
escarcéu com os braços que possibilitaram a
Luiz e minha mãe enxergarem, de tão longe e
com um mar nos separando, toda nossa alegria e
emoção.

Depois, já
na hospedaria com o acordo do meu
ingresso pelo simpático casal, seus
proprietários, apenas esperando chegar, para a
concordância, a outra hóspede, nós, no cyber
ao lado, fomos despachar nossas mensagens aos
nossos queridos (as)...eu, terminando antes,
fui para a porta apreciar a chuva que jorrava
lavando as almas pela bonança a que
aludia...quando chegou Maria Isabel...
antes
que entrasse indaguei...
você é a brasileira? e
festejando a afirmativa disse...
venha aqui,
minha amiga está teclando, mas ela é a sua
companheira de quarto...
então presenciei o
mais lindo reencontro deste meu Caminho.

Uma chegada especial esta e aqui deixo em
transcrição, a primeira mensagem enviada para
o Brasil em 08/10/04 e que registra toda minha
emoção, e os últimos recados das minhas
filhas lá recebidos.
Querida
família e queridos (as) amigos (as)
Concluir a meta... cumprir o sonho...
uma
sensação indescritível de uma emoção
impensada... de repente, numa curva da cidade
atravessada, avistar as torres da Catedral
ali, ao alcance de minhas vistas, tão próximas
apesar dos quase 800 quilômetros que nos
separavam ao início da minha peregrinação,
parecia irreal e impossível...
as lágrimas me
inundaram a face e a alma...
chorei
copiosamente, sem me importar com as centenas
de turistas que lotavam a Praça...
a minha
canga com a bandeira do Brasil me enrolava o
colo... cheguei a pensar em, primeiramente, ir
providenciar alojamento já que Compostela, no
dia 08/10/2004, começava a comemorar um fim de
semana esticado com um feriado religioso...
então pensei... não...
vou dar curso às minhas
emoções e sentimentos...
para isso tinha
vindo... o abrigo Deus me proverá...
no dia
anterior eu havia caminhado, de Arzua até
Monte do Gozo, 34 quilômetros...
pensei que não
conseguiria... mas Rodrigo, o jovem músico
paulista, que caminhava junto com Miriam, a
alemãzinha também musicista, flautista em
Berlim, me dissera enfático:
"mas você deseja ir até Monte do Gozo
hoje???... se você deseja, você
consegue... venha conosco que eu ando devagar
para lhe acompanhar..."
Assim, entrei na Catedral, me postei aos pés
de Santiago agradecendo, pousei minha mão no
Pórtico da Gloria, dei os três croques no
Santo, depois fui ao abraço, depositei meu
laço de fita com todos os nomes
inscritos... depois enfrentei a fila para
receber minha compostelana e, então, voltei à
Catedral para a Missa dos Peregrinos...
festiva
na sexta-feira, com a presença do Cardeal do
Chile, de Ministro daquele país, celebrada
pelo Bispo Geral de Compostela e concelebrada
por mais de 10 sacerdotes...
cantada por uma
freira de linda voz...
três brasileiros citados
como peregrinos a pé...
eu era um deles...
ao
final o emocionante botafumeiro lançado aos
ares ao som do órgão...
mais choro... e nesse
enlevo e vivendo essas emoções todas como se
levitando estivesse, no meio da multidão na
Igreja encontro Clô...o abraço festivo da
irmandade conterrânea...e através dela
encontro refúgio na pensão em que estava...ia
dividir um quarto com outra brasileira que
ainda não tinha visto...e disse-me: "vamos lá
pedir para que coloquem outro colchão, nem que
seja no chão... a outra hóspede deve
concordar...caso contrário não é peregrina"...
depois a outra descoberta...
Maria Isabel, a
cearense de Fortaleza, também médica como Clô,
tinha sido sua amiga de residência médica, há
mais de 20 anos não se viam...
assim formamos
um unido trio nestas últimas 24 horas...
coisas
do Caminho que, embora agora encerrado, me dá
a sensação e a impressão de que outra pessoa
nasceu em mim...
Beijos, GuiPerê.
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Ju envia seu
recado
OLÁ
PEREGRINA !!
BELO DIA
ESSE 8 DE OUTUBRO HEIN? AQUI ATÉ ONTEM ESTAVA
NUBLADO, HOJE AMANHECEU DIA CLARO, COM
SOL...FOMOS DORMIR COM O CORAÇÃO NA MÃO,
SABENDO QUE ESTAVA CHEGANDO O MOMENTO TÃO
ESPERADO DESSA CAMINHADA, IMAGINANDO A SUA
EMOÇÃO PELA CONQUISTA, ORGULHOSOS POR VC TER
CHEGADO LÁ !!
PARABÉNS POR
TER IDO EM BUSCA DE UM SONHO QUE PARECIA TÃO
DISTANTE, POR SE MANTER DE PÉ
EM UM CAMINHO COM TANTOS PERCALÇOS(AQUI E AÍ), POR SUPERAR AS DIFICULDADES QUE
APARECERAM E PRINCIPALMENTE SE SUPERAR. MUITOS
APLAUSOS POR TER LARGADO O CIGARRO , POR TER
SIDO FORTE MESMO SEM ESTAR 100% PREPARADA.
PELOS SEUS RELATOS(ESPERAMOS MUITOS
OUTROS...), ALÉM DE BELAS PAISAGENS E MOMENTOS
MÁGICOS, PARECE QUE O MAIS IMPORTANTE DO
CAMINHO SÃO AS PESSOAS, AQUELES DESCONHECIDOS
QUE FORAM APARECENDO LITERALMENTE E QUE
AJUDARAM TANTO, CADA UM DE UM JEITO DIFERENTE.
NA VIDA TB É ASSIM, NÃO? O QUE SERIA DO
CAMINHO, SEM AS PESSOAS QUE CAMINHAM
JUNTO?...( UM JEITO "BECO" DE SER...). PENA
NÃO TER OUVIDO A MSG NO GRAVADOR...O QUE EU
DISSE FOI QUE , DO MESMO JEITO QUE UM DIA VC
FEZ NA CAPELA DA STA CASA, EU ESTAVA TE
ENTREGANDO 'A SÃO TIAGO, PEDINDO PARA ELE TE
GUIAR E PROTEGER. QUE BOM QUE ELE OUVIU MINHAS
PRECES...VIVA SÃO TIAGO !!
VIVA GUIPERÊ
!!!
MUUUUIIITTOOOOSSS BEIJOS, JU
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E os
conselhos de Lu a sempre preocupada com todos
Mãe:
Não se esqueça de tomar CUIDADO quando pegar o
trecho da carretera (N547), acho que entre Sta
Irene e Arca. Lembra do episódio do ciclista
que descreveu, ocorrido em Julho. Cuidado,
mãe, porque vc está mais cansada. Pelo seu
relato, vc tinha intenção de parar em Sta
Irene, antes de Arca.....fará isso? Está quase
lá, Santiago te espera de braços
abertos!!!!!!!!!!
Beijos . Lu
, Francisco e Lucas.
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Incluo ainda
neste meu relato este resumo poético, in
memoriam da amiga irmã Márcia Schiavon e
de todos (as) os (as) peregrinos (as) da vida,
como ela, já em trilha de outra dimensão mais
serena ainda. Este meu Camino hasta
Santiago, Pelos Campos das Estrelas,
foi um grande aprendizado, aprendi a entender
melhor as perdas.
Consta
escrito por mim no meu diário de Burgos a
Hornillos del Camino
"o sol
castiga mas a visão do infinito Caminho
ameniza..."

El Camino hasta Santiago
Gui Oliva
Ah! é mesmo
mágico esse Caminho,
em outra dimensão nos leva a levitar,
nele aprendi a desfazer meu remoinho,
andando nele, comigo me encontrar.
Saltei as
pedras, atravessei as pontes,
venci mesetas da solidão mas nunca a
sós,
transpus montanhas, bebi das suas fontes,
sorvi saber para, na vida, desatar os nós.
Anoiteci nos seus campos de estrelas,
segui suas setas, desvendei seus trilhos,
conversei com Deus de forma nunca igual.
Amealhei
amigos (as) e não os esquecerei
distantes, são dos meus versos estribilhos
que ressoam... provei do verdadeiro Amor o sal!
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Livros
e citações:
1.
Caminho de Santiago a Compostela. Portal do
Peregrino -
http://www.caminhodesantiago.com/
2. Santiago
de Compostela.
Página no Google
http://pt.wikipedia.org/wiki/
3. Mendes,
Ricardo. Santiago de Compostela:
Os 8
portais do Caminho" Axcel Books do
Brasil Editora.
RJ 2002
4. Guia
El PaísAguilar: El Camino de Santiago a Pie
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