DIREÇÃO A SANTIAGO DE COMPOSTELA


Acordei neste dia Oito de Outubro do Ano Santo Compostelano de 2004 com o coração saltitando de alegria. Na realidade, parecia que ele brincava ao sentir que daí mais um pouco, faltava muito pouco, o velho sonho, pleno, intenso se realizava. Durante o café do trio, cada qual definiu seu tempo para a mesma direção.

Eu fui a segunda a sair, depois da jovem Miriam, e meus passos compassados batiam o compasso da lembrança de todos (as) que desciam, em pensamentos e emoções comigo, aquela última montanha para o abraço a Santiago. É Tiago, o Maior, o Evangelista, o Peregrino, o Santo. Lembrei dos meus irmãos, especialmente daquele que deveria estar ali comigo, e nós dois, como manda a tradição, juntos cantando. E pensei, mas se eu dei todos esses passos nesses que dizem ser em torno de 750 quilômetros vencidos, durante esses 33 dias, por mim e por ele, agora eu também posso cantar por nós dois.

Pensando em repetir a idéia de minha etapa sonhada, a imagem para abrir este final do relato, bati a foto das torres apenas como se estivesse o meu olhar através delas tocando o céu... uma visão de quem olha para o Altíssimo, como as torres da Catedral do Apóstolo... embora não tenha o efeito lindo daquela pertencente ao álbum de Rafael e Maria Jesus1, esta aí acima é a minha, é a tomada pela minha presença aqui, permeada de toda emoção que sinto.

Abaixo, o coração carinhoso de Clô cedeu a sua visão da Catedral e suas torres ao longe.
 

E comecei a descer com um lá, lá, ra, lá rá rá, entoando esta melodia da canção que embalou as minhas etapas sonhadas e toda esta minha caminhada. Canção agora enriquecida com o poema de Luiz Antônio, meu companheiro no caminho da vida que, embora não recebendo o chamamento para realizar a pé a Rota Jacobea, esteve permanentemente a apoiar e a compreender o meu sonhado projeto. E, no retorno do meu último preparatório, de surpresa  brindou-me  com este poema, ao qual deu o nome da canção e que, ao incorporar a alma peregrina, solfejou por mim e para mim.

AMOUR

Luiz Antonio Lucena de Oliva

Sonhos comigo vou levar

nos passos de um  novo caminhar,

com preces e pétalas de mil paixões,

em  lembranças, quimeras e canções.

E parto num novo despertar,

alvorada de puras sensações.

minh´alma  vai estar sempre a cantar,

aos ventos e sopros dos rincões.

Cantante,  será meu coração,

vibrando em cada nova oração,

abrindo os mundos do sem-fim,

e aqueles que estão dentro de mim.

Alegre,  a cumprir o longo andar,

com  fé e  também  amor cristão,

sem nada pedir, ou  reclamar,

eu terei Deus a dar-me sempre a mão.

No seio da mãe-fértil-natureza,

comigo os meus ais e  incertezas,

mas tenho alento para o que há de vir,

na sua seiva se nutre meu porvir.

Montes... estrelas... céu de emoções,

caminhante, eu sei aonde vou chegar,

tecendo as trilhas, tradições,

andante,  sou o próprio caminhar.

Santiago, ao fim  dessa  missão,

compôs... tela de toda uma devoção,

é bálsamo a aliviar o meu  viver,

esperança de sempre renascer.

A passagem pelos bosques galegos antes de chegar ao Monte do Gozo já havia proporcionado momentos de profunda reflexão, mas esta descida aqui me remete aos céus das estrelas que cintilam no meu interior. Antes de entrar na zona urbana eu começo a cantar... eu fico com a pureza das respostas das crianças... é a vida... é bonita, e é bonita... e vou observando ângulos interessantes, e a emoção vai avolumando,  mas lembro que estou sem máquina...não sofro, penso, para que eu possa  fotografar, Santiago haverá de me dar uma trilha. Luiz, como luz positiva,  enviava-me, na véspera deste dia, a mensagem que eu leria  tempo depois, mas o efeito da vibração chegou célere, e deixo em registro gravada neste relato:

"Amor: Eis que o sonho se realiza com plenitude! Vibrei quando a Juliana me contou que vc. está às portas da meta tão desejada. Sua decisão foi certa; agora, é um "pulinho" até Santiago de Compostela e a guerreira peregrina terá cumprido sua missão. Todos os sonhos, todos os anseios, toda a determinação, tudo que vc. prometeu a si mesma nesses meses todos, tudo acaba se condensando no momento sublime de uma devoção marcada pelo amor e pela entrega.

Sentimo-mos todos incluídos nessa hora tão importante, tão inesquecível! Afinal, vc. venceu. Que todas as suas emoções fiquem gravadas em sua memória e em seu coração, para desfrutar pela vida inteira.

Espero que vc. consiga resolver o problema da máquina, mas se não for possível será, no fundo, mais um detalhe a compor esse verdadeiro painel de fortes emoções, vividas e sofridas.

O preço material ficará engolido pelo sentido espiritual da peregrinação.

Aqui, felizmente, tudo continua bem, em paz. Quanto à sua volta, vc. vê o que for melhor para vc.; esta deve ser sua viagem até o fim. Hoje ainda estou precisando atualizar a leitura final das etapas. Se aí, ao chegar, vc., como outros peregrinos, sentir saudade do Caminho, nós aqui também teremos vontade de fazer a releitura dos vôos de sua imaginação, para tentar entender um pouco do significado de sua trajetória. E aí, vai preparar um livro? Se o fizer, tenho a certeza de que ficará tão bom quanto os melhores!

Agora são 22.00 horas. Lu e Lucas ainda estão conosco, esperando o Francisco chegar do curso. Quando acordarmos amanhã, vai nos ocorrer a primeira idéia do dia: ela chegou lá!!! Que vc. tenha um sono reparador e lindos sonhos, que vão continuar e provavelmente até aumentar, e talvez mais ainda a partir da sua volta.

Um beijo de seu Luiz. "

Assim embalada fui cantando, e passaram   parque industrial, carreteras de intenso tráfego, esse o inevitável confronto com a realidade da grande cidade, mas não o propalado embate com o trânsito, o barulho e o movimento, talvez pelo horário, bem cedo, em que entro na zona urbana, e exulto internamente por aproximar-me do final da jornada: Santiago está ali, a pouco tempo de caminhada. Desde o alto, apenas quatro quilômetros me separam  do encontro com a Praça do Obradoiro...da visão da Catedral  de Santiago... da superação final das minhas limitações... do encontro para o abraço ao Apóstolo... do definitivo encontro comigo.

Já não mais pesam a mochila e as botas, já não há mais cansaço, não há tempo medido e metragem de trilha andada aferida, é o início de um êxtase que me aproxima de Deus.

Seguindo as setas entro no centro viejo com seu comércio todo ainda fechado, e vou trilhando e na segunda ruela espanto, uma loja aberta, incrivelmente uma fotótica, lá dentro duas jovens... ah! pensei... sei, conheço quem é o Guia deste meu Caminho. Ele está a me dizer... entra. As jovens Olga e Suzana se desdobram em atenções para preencher a falta da máquina de que eu precisava, porém com custo adequado ao fim de uma caminhada como esta e oferecendo-me todas as ligeiras explicações para o funcionamento da mesma.

Beijando-as saí agora levitando. E na primeira curva da rua a primeira foto.

E mais uns passos, com a primeira visão de uma das torres da Catedral desabei de emoção.

E vou registrando o complexo de antigas construções que circundam a Catedral.

E chego na Praça do Obradoiro e deparo-me, embora a foto de beleza restrita, com a portentosa

Catedral de Santiago

o emblema religioso da Galícia e do Caminho de Santiago, com múltiplos pontos de interesse, entre os que se destacam no seu interior o Pórtico da Glória do Mestre Mateus e no exterior as fachadas de Pratarias e Obradoiro, conjunto barroco que completa a fachada principal diante do pórtico da Glória em frente ao Paço de Raxoi.2

Santiago de Compostela é a capital da Galiza (Espanha), localiza-se na província da Coruña, de área 223 km2, com população de 93.712 habitantes (2007) e densidade populacional da província de 416,70 hab/km², conforme dados da página indicada.2

É uma cidade mundialmente famosa pela sua catedral de fachada barroca onde acorrem os peregrinos que perfazem os Caminhos de Santiago de maneira a depararem-se com o manto de Sant'Iago, um dos apóstolos de Cristo, cujo corpo, crêem, foi trasladado para aquele lugar.

Choro a cântaros, e não me importa o choro pois são lágrimas de emoção, e chorando encontro com o alemão Roland, que se dispõe a fotografar a minha chegada na Praça, nesse momento já mais movimentada, desfraldo a bandeira do meu país.

e, numa seqüência de quatro fotos, clica minha subida nas escadarias e o meu aceno como a gritar cheguei... eu consegui.

E ao me despedir de Roland, o mesmo peregrino a quem tive a coragem, pela primeira vez, de pedir a alguém, interrompendo seu caminhar, que me fotografasse, eu o registro junto a um casal amigo dele.

Agora é chegado o momento de adentrar a Catedral para, primeiramente orar, agradecer e olhando para Santiago dizer: com sua ajuda e seu auxílio eu consegui estar aqui.

SANTIAGO NO ALTAR

Em seguida cumprir os rituais, o  das mãos no Pórtico da Glória, não fotografado, e o do bater a cabeça três vezes na imagem do mestre Mateus, o construtor do maravilhoso pórtico e também chamado de "o Santo dos croques", este fotografado pela gentileza de uma recepcionista ao lado.

O momento para o abraço esperado, por uma entrada especial, compondo a extensa fila a subir por detrás do altar principal.

Infelizmente, eu não tinha alguém para registrar o meu abraço... foi  aquele momento de pedir a Santiago por todos: por minha família, por amigos e amigas, pelos enfermos do físico e da alma, pelas almas dos que já se foram, pela  minha cidade, pelo meu país, pela paz no mundo...eu estive obrigada a dois abraços...o meu e o do Beco...e ainda depositei aos  pés de Santiago o laço de fita com os nomes de todos (as), aqueles (as) com os quais saí do Brasil e aqueles (as) que acrescentei no Caminho.

E passando pelo local que afirmam ser o sepulcro de Sancti Jacobi, estanquei naquele exíguo espaço e pude participar do final da missa que estava sendo celebrada, ainda antes da consagração, com a presença de um casal, duas crianças e um senhor. Fiquei admirada e meio constrangida tentei um close da lápide.

Diante do acúmulo de turistas que chegavam em Compostela em razão de um feriado próximo, talvez o mais correto, alguém pensaria, teria sido agora eu sair para providenciar alojamento, mas decidi o contrário... resolvi dar curso às minhas emoções e sentimentos, e tratar de todos os rituais e vivenciar os fazeres em relação ao Caminho, para depois pensar em hospedaria. Cheguei a avaliar, como último recurso eu peço para dormir num banco da Catedral ou da praça.

Dessa forma saí a campo para receber meu Certificado da Compostelana. Fila que, na Oficina dos Peregrinos, invadia pela escadaria.

O cão e o peregrino

Revejo os dois franceses que, em Tosantos, por se portarem de maneira individualista, não participarem dos atos coletivos como a refeição e a oração, foram classificados como não peregrinos, apenas caminhantes, pois é, estão aí, dando valor à Compostelana e bem disciplinados respeitando a fila. Alterado o conceito negativo sobre eles, coisas do Caminho.

Registro os quadros nas paredes e suas mensagens, as fotos em tela, ampliadas, possibilitam a leitura.

E, surpresa,recebo o favor divino de poder retribuir para Rodrigo, uma pequena faísca de toda a chama da sua atenção fraterna comigo, registrando a sua saída, feliz, ao receber o seu Certificado Compostelano.

Agora a atendente assinando e a foto do meu. Sinto como o sabor de receber um certificado de doutorado do aprendizado da vida.

Na última linha do livro que aparece na foto, o registro do meu nome e a cidade de onde vim... Santos/SP e a maneira como cheguei... a pé.

Na saída da Oficina identifiquei as janelas onde se encontravam as câmeras que transmitem, em tempo integral, para a página do Caminho do Peregrino 1,

e identifico o local, a fonte no monumento da praça, o mais próximo onde devo me postar para que meu pessoal no Brasil me veja... o plano já estava por mim engendrado. Aqui com uma das peregrinas alemãs, para as quais expliquei a existência da filmagem e o endereço e os passos internéticos para que outro local e mesmo de outro país atinja, e hoje nem sei se ainda existe esse recurso internético para se estar no Caminho através do espaço virtual.

Logo a seguir, participar da Missa do Peregrino, um acontecimento grandioso, realizado diariamente ao meio dia, mas neste dia antecipada para as 11:00 horas,  foi missa solene, com a presença do Bispo Geral de Santiago de Compostela, com o Cardeal do Chile e um Ministro Chileno que usaram a palavra na celebração e que foi  concelebrada por mais de 10 sacerdotes...há uma relação de irmandade entre esta cidade e a  capital do Chile. Mas me emocionei mesmo quando foi citado e discorrido o Evangelho do dia: do Evangelista LUCAS. Parece também que neste fim de semana há o feriado do dia 12, terça-feira, que estende o fim de semana e, por razão do Ano Santo Compostelano, há uma Vigília Nacional... a cidade está repleta. E a Catedral no momento da Missa também. Faço, de longe, uma seqüência de fotos do Altar, em diferentes momentos, e era bem difícil a minha situação, pois não consegui lugar em banco e  minha mochila ainda se encontrava nas costas. A emoção era tamanha que qualquer dor ou incômodo físico foram plenamente sublimados.

Toda a celebração foi lindamente cantada por uma belíssima voz de soprano, comentado que seria uma freira, naquele turbilhão de pessoas não acompanhei se foi feita referência ao seu nome.

Ao final a oração e saudação aos peregrinos e a citação dos países e o quantitativo de seus representantes com inscrição até às 10:00 horas do dia... o Brasil com três... Clotilde (Clô), Rodrigo e eu.

Por último, o magnífico ritual do botafumeiro, esse imenso incensário que é erguido por oito homens, chamados tiraboleiros, e com cordas lançado para o alto e, pela nave transversal à nave central balança sobre as cabeças das pessoas que olham todas para cima, extasiadas, e o aroma do incenso espalha-se por todo o ambiente da Catedral,  emocionando a todos e acompanhado por órgão e canto do Hino a Santiago.  Há quem diga que o costume medieval desse incensário tinha o objetivo de minimizar o mal cheiroso odor trazido pelos peregrinos em decorrência da extensa e difícil caminhada.

Alguns registros dos momentos do balançar botafumeiro.

Todos os fiéis de pé, na Catedral lotada.

Uma visão dos arcos da nave transversal citada,

uma tentativa de captar a passagem do lindo adorno, mas com a rapidez que balança, só com uma filmadora e em boa localização para o foco.

* Incluído em 11/12/2009 o vídeo, cedido pela amiga peregrina Clotilde, que registra a liturgia do batofumeiro na Catedral de Santiago de Compostela.

O fim da celebração da Missa para mim teve um sabor de pleno congraçamento... parece que todos (as) aqueles (as) cristãos (ãs) ou não, se encontram, ou reencontram, ou se descobrem naqueles momentos... e eu, assim, de repente, senti Tiago O Peregrino, na minha mochila nas costas recebo um toque para um  abraço, de quem? Clotilde...amiga peregrina entre as especiais.  Clô, a irmã peregrina, ela com a vivência de  alguns Caminhos, a pé e de bicicleta,  aqui também generosa compartilha lindas fotos suas neste meu relato. Só nós podíamos mesmo reencontrar o nosso abraço naquele turbilhão de pessoas dentro da Catedral, ambas dividindo-o com os abraços dados a Santiago. E naquele momento já sorvi, na vida real, o belo exemplo da rota jacobea... onde estás hospedada? indagou a amiga. Respondi, ainda não estou, nem sei se vou conseguir local com esse quantitativo de turistas na cidade, mas eu durmo até num banco aqui. Ela respondeu categórica, vamos até a hospedaria em que estou, sei que a partir de hoje divido o quarto com uma outra brasileira que nem conheço ainda, mas vamos pedir para que coloquem outro colchão, nem que seja no chão. Eu, com os meus receios de sempre, indaguei... mas Clô, e se a outra hóspede não concordar? ah! se ela não concordar ela não é peregrina.

Maria Isabel, a cearense de Fortaleza, não só se revelou uma grande peregrina, mas um ser especial também, uma generosa companheira irradiando só alegria e... o mais bonito e mesmo emocionante, foi presenciar o inesperado encontro de duas colegas e amigas, que há mais de 20 anos não se viam, após a conclusão da residência médica que cursaram juntas, em Campinas/SP.

Registros de um dia de transbordamento de alegria. Ainda na Catedral S. Revdmo Bispo Geral de Santiago de Compostela encontra-se com os fiéis

e não passa sem os nossos  cumprimentos,

Clô o cumprimenta

O meu cumprimento

Reencontro o holandês com sua esposa, que veio da Holanda para encontrá-lo na chegada do Caminho e Clô também o conhecia.

Eu feliz ainda por reencontrar também Natália, a minha companheira dos passos entre León e Villar de Mazarife.

E agora, em direção à Pension, localizada bem pertinho da Catedral, nos estancamos por preciosos momentos... após as ligações telefônicas ao Brasil, orientadoras da teclagem internética para o acesso ao endereço no site Caminho do Peregrino, eu e Clô, deste ponto do monumento da Praça, fizemos o devido escarcéu com os braços que possibilitaram a Luiz e minha mãe enxergarem, de tão longe e com um mar nos separando, toda nossa alegria e emoção.

Depois, já na hospedaria com o acordo do meu ingresso pelo simpático casal, seus proprietários, apenas esperando chegar, para a concordância, a outra hóspede, nós, no cyber ao lado, fomos despachar nossas mensagens aos nossos queridos (as)...eu, terminando antes, fui para a porta apreciar a chuva que jorrava lavando as almas pela bonança a que aludia...quando chegou Maria Isabel... antes que entrasse indaguei... você é a brasileira? e festejando a afirmativa disse... venha aqui, minha amiga está teclando, mas ela é a sua companheira de quarto... então presenciei o mais lindo reencontro deste meu Caminho.

Uma chegada especial esta e aqui deixo em transcrição, a primeira mensagem enviada para o Brasil em 08/10/04 e que registra toda minha emoção, e os últimos  recados das minhas filhas lá recebidos.

Querida família  e queridos (as) amigos (as)

Concluir a meta... cumprir o sonho... uma sensação indescritível de uma emoção impensada... de repente, numa curva da cidade atravessada,  avistar as torres da Catedral ali, ao alcance de minhas vistas, tão próximas apesar dos quase 800 quilômetros que nos separavam ao início da minha peregrinação, parecia irreal e impossível... as lágrimas me inundaram a face e a alma... chorei copiosamente, sem me importar com as centenas de turistas que lotavam a Praça... a minha canga com a bandeira do Brasil me enrolava o colo... cheguei a pensar em,  primeiramente, ir providenciar alojamento já que Compostela, no dia 08/10/2004, começava a comemorar um fim de semana esticado com um feriado religioso... então pensei... não... vou dar curso às minhas emoções e sentimentos... para isso tinha vindo... o abrigo Deus me proverá... no dia anterior eu havia caminhado, de Arzua até Monte do Gozo, 34 quilômetros... pensei que não conseguiria... mas Rodrigo, o jovem músico paulista, que caminhava junto com Miriam, a alemãzinha também musicista, flautista em Berlim, me dissera enfático:

"mas você deseja ir até Monte do Gozo hoje???... se você deseja, você consegue... venha conosco que eu ando devagar para lhe acompanhar..."

Assim, entrei na Catedral, me postei aos pés de Santiago agradecendo, pousei minha mão no Pórtico da Gloria, dei os três croques no Santo, depois fui ao abraço, depositei meu laço de fita com todos os nomes inscritos... depois enfrentei a fila para receber minha compostelana e, então, voltei à Catedral para a Missa dos Peregrinos... festiva na sexta-feira, com a presença do Cardeal do Chile, de Ministro daquele país, celebrada pelo Bispo Geral de Compostela e concelebrada por mais de 10 sacerdotes... cantada por uma freira de linda voz... três brasileiros citados como peregrinos a pé... eu era um deles... ao final o emocionante botafumeiro lançado aos ares ao som do órgão... mais choro... e nesse enlevo e vivendo essas emoções todas como se levitando estivesse, no meio da multidão na Igreja encontro Clô...o abraço festivo da irmandade conterrânea...e através dela encontro refúgio na pensão em que estava...ia dividir um quarto com outra brasileira que ainda não tinha visto...e disse-me: "vamos lá pedir para que coloquem outro colchão, nem que seja no chão... a outra hóspede deve concordar...caso contrário não é peregrina"... depois a outra descoberta... Maria Isabel, a cearense de Fortaleza, também médica como Clô, tinha sido sua amiga de residência médica, há mais de 20 anos não se viam... assim formamos um unido trio nestas últimas 24 horas... coisas do Caminho que, embora agora encerrado, me dá a sensação e a impressão de que outra pessoa nasceu em mim...

Beijos, GuiPerê.

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Ju envia seu recado

OLÁ PEREGRINA !!

BELO DIA ESSE 8 DE OUTUBRO HEIN? AQUI ATÉ ONTEM ESTAVA NUBLADO, HOJE AMANHECEU DIA CLARO, COM SOL...FOMOS DORMIR COM O CORAÇÃO NA MÃO, SABENDO QUE ESTAVA CHEGANDO O MOMENTO TÃO ESPERADO DESSA CAMINHADA, IMAGINANDO A SUA EMOÇÃO PELA CONQUISTA, ORGULHOSOS POR VC TER CHEGADO LÁ !!

PARABÉNS POR TER IDO EM BUSCA DE UM SONHO QUE PARECIA TÃO DISTANTE, POR SE MANTER DE PÉ EM UM CAMINHO COM TANTOS PERCALÇOS(AQUI E AÍ), POR SUPERAR AS DIFICULDADES QUE APARECERAM E PRINCIPALMENTE SE SUPERAR. MUITOS APLAUSOS POR TER LARGADO O CIGARRO , POR TER SIDO FORTE MESMO SEM ESTAR 100% PREPARADA. PELOS SEUS RELATOS(ESPERAMOS MUITOS OUTROS...), ALÉM DE BELAS PAISAGENS E MOMENTOS MÁGICOS, PARECE QUE O MAIS IMPORTANTE DO CAMINHO SÃO AS PESSOAS, AQUELES DESCONHECIDOS QUE FORAM APARECENDO LITERALMENTE E QUE AJUDARAM TANTO, CADA UM DE UM JEITO DIFERENTE. NA VIDA TB É ASSIM, NÃO? O QUE SERIA DO CAMINHO, SEM AS PESSOAS QUE CAMINHAM JUNTO?...( UM JEITO "BECO" DE SER...).    PENA NÃO TER OUVIDO A MSG NO GRAVADOR...O QUE EU DISSE FOI QUE , DO MESMO JEITO QUE UM DIA VC FEZ NA CAPELA DA STA CASA, EU ESTAVA TE ENTREGANDO 'A SÃO TIAGO, PEDINDO PARA ELE TE GUIAR E PROTEGER. QUE BOM QUE ELE OUVIU MINHAS PRECES...VIVA SÃO TIAGO !!

VIVA GUIPERÊ !!!

MUUUUIIITTOOOOSSS BEIJOS,  JU

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E os conselhos de Lu a sempre preocupada com todos

Mãe:

Não se esqueça de tomar CUIDADO quando pegar o trecho da carretera (N547), acho que entre Sta Irene e Arca. Lembra do episódio do ciclista que descreveu, ocorrido em Julho. Cuidado, mãe, porque vc está mais cansada. Pelo seu relato, vc tinha intenção de parar em Sta Irene, antes de Arca.....fará isso? Está quase lá, Santiago te espera de braços abertos!!!!!!!!!!

Beijos . Lu , Francisco e Lucas.

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Incluo ainda neste meu relato este resumo poético, in memoriam da amiga irmã Márcia Schiavon e de todos (as) os (as) peregrinos (as) da vida, como ela, já em trilha de outra dimensão  mais serena ainda. Este meu Camino hasta Santiago, Pelos Campos das Estrelas, foi um grande aprendizado, aprendi a entender melhor as perdas. 

Consta escrito por mim no meu diário de Burgos a Hornillos del Camino

"o sol castiga mas a visão do infinito Caminho ameniza..."

El  Camino hasta Santiago

Gui Oliva

Ah! é mesmo mágico esse Caminho,
em outra dimensão nos leva a levitar,
nele aprendi a desfazer meu remoinho,
andando nele, comigo me  encontrar.

Saltei as pedras, atravessei as pontes,
venci mesetas da solidão mas nunca a sós,
transpus montanhas, bebi das suas fontes,
sorvi saber para, na vida, desatar os nós.

Anoiteci nos seus campos de estrelas,
segui suas setas, desvendei seus trilhos,
conversei com Deus de forma nunca igual.

Amealhei amigos (as)  e não os esquecerei
distantes, são dos meus versos estribilhos
que ressoam... provei do verdadeiro Amor o sal!

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Livros e citações:

1. Caminho de Santiago a Compostela. Portal do Peregrino - http://www.caminhodesantiago.com/

2. Santiago de Compostela. Página no Google
http://pt.wikipedia.org/wiki/

3. Mendes, Ricardo. Santiago de Compostela: Os 8 portais do Caminho" Axcel Books do    Brasil Editora. RJ 2002

4. Guia El PaísAguilar: El Camino de Santiago a Pie

 

 

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